A Dor Silenciosa de Ver o Nosso Mundo Mudar

Solastalgia: A Dor Silenciosa de Ver o Nosso Mundo Mudar

Imagine que o rio onde aprendeu a nadar não existisse mais, o bairro onde cresceu seja engolido pelas águas, não você não se mudou, não emigrou, mas algo dentro de si se foi.

Mesmo estando em casa, já não se sente em casa. Esta é a angústia profunda de ver o seu próprio ambiente transformar-se numa versão irreconhecível de si mesmo. Esta emoção, muitas vezes silenciosa e devastadora, tem um nome: solastalgia.

O Que É a Solastalgia? A Perda do Presente

O termo solastalgia foi cunhado em 2005 pelo filósofo ambientalista australiano Glenn Albrecht, professor da Universidade de Sydney . Albrecht desenvolveu este conceito ao observar o sofrimento de comunidades rurais na Austrália, cujas paisagens estavam a ser destruídas pela mineração a céu aberto e pelas secas persistentes.

A etimologia da palavra revela a sua essência: solacium (conforto, em latim) + algia (dor, sofrimento). Literalmente, significa a dor de perder o conforto do lugar que se chama casa. Como o próprio Glenn Albrecht descreve,"Solastalgia é a saudade que se sente quando se está em casa" . Ao contrário da nostalgia, que é a tristeza de estar longe de um lugar amado, a solastalgia é a angústia de ver esse lugar amado a ser destruído enquanto ainda se está lá. Não se trata de ausência, mas sim de uma presença dolorosa.

O psicólogo Lucas Marques, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, sublinha a importância de nomear este sofrimento: "Dar nome a esse sofrimento é importante porque permite reconhecê-lo como algo legítimo, que tem causa, contexto e história". Ele acrescenta que "Nomear é o primeiro passo para estudar, compreender e, principalmente, construir respostas de cuidado" .

A ciência corrobora esta perspetiva. Um artigo publicado na revista Nature Mental Health indicou que a solastalgia atua como um marcador sensível do desgaste psíquico provocado pela crise ambiental, manifestando-se em sintomas como irritabilidade, angústia, distúrbios do sono e uma sensação persistente de ameaça .

Solastalgia e Ecoansiedade: Passado e Futuro da Dor

É comum confundir solastalgia com ecoansiedade, pois ambas são respostas emocionais à crise ambiental. No entanto, elas apontam para direções temporais distintas:

Ecoansiedade é o medo do que pode acontecer. É a antecipação de cenários futuros, o temor pelos filhos e o peso de um futuro incerto. É a angústia que cresce com cada notícia alarmante sobre o aquecimento global, definida pela Associação Americana de Psicologia como o "medo crónico de um cataclismo ambiental".

Solastalgia, por outro lado, é a dor do que já está a acontecer. Não se foca no futuro, mas sim no presente que se deteriora. É a tristeza de ver a praia desaparecer, o rio secar, a floresta arder, a paisagem da infância transformar-se numa cicatriz. Enquanto a ecoansiedade olha para a frente, a solastalgia olha para o lado — e chora. Onde a ecoansiedade pergunta "o que vai ser de nós?", a solastalgia geme "o que fizeram com o meu lugar?" .

Quando o Chão Desaparece: Exemplos Reais de Solastalgia

A solastalgia não é um conceito abstrato; manifesta-se em comunidades e vidas reais em todo o mundo. Em África, os exemplos são particularmente dramáticos:

Moçambique: O País que Vive num Estado de Sítio Climático

Moçambique é um dos países mais afetados por fenómenos climáticos extremos.
Em janeiro de 2026, inundações históricas em Marracuene, a 30 km de Maputo, submeteram a cidade à água após o transbordo do rio Inkomati. O agricultor Francisco Fernando Chivindzi, de 67 anos, descreveu a devastação: "Perdemos tudo nas enchentes, incluindo casas, geladeiras, roupas e gado. Nossas fazendas estão submersas. As águas da enchente atingiram níveis que não esperávamos. Nunca tivemos uma enchente dessa magnitude em toda a minha vida" . O prefeito de Marracuene, Shafee Sidat, relatou que pessoas ainda se agarravam a copas de árvores e telhados, recusando-se a abandonar as áreas de risco.

Outros eventos incluem:
Ciclone Idai (2019): Beira, a segunda maior cidade de Moçambique, ficou 90% destruída, com mais de mil vítimas e cerca de 1.593 mortes em Moçambique, Malawi e Zimbábue .

Ciclone Freddy (2023): Um dos ciclones mais longos e mortíferos, resultou em mais de 270 mortes em Moçambique, Madagáscar e Malawi, e deixou dezenas de milhares de desabrigados .

Nigéria: O Peso das Águas Ano Após Ano

A Nigéria, o país mais populoso de África, é anualmente devastada por cheias.
Em maio de 2025, chuvas torrenciais na região central do país causaram pelo menos 151 mortes e submeteram bairros inteiros à água. Mohammed Tanko, de 29 anos, relatou: "Perdemos pelo menos 15 pessoas desta casa. A propriedade se foi. Perdemos tudo" . Em 2024, as cheias mataram mais de 1.200 pessoas e desalojaram 1,2 milhões em pelo menos 31 dos 36 estados da Nigéria. Em 2022, mais de 600 pessoas morreram e 1,4 milhões ficaram desabrigadas .

Quénia: Quando a Barragem se Rompe e a Terra Desaba

Em 2024, o Quénia foi atingido por semanas de chuvas torrenciais e inundações. Perto da cidade de Mai Mahiu, o rompimento de uma barragem (ou o entupimento de um túnel sob uma ponte ferroviária) resultou em pelo menos 71 mortos, 110 feridos e casas varridas pela enchente. Uma equipa da CNN no local testemunhou veículos tombados, árvores arrancadas e uma área de devastação que se estendia por vários quilómetros . No final de 2025, um deslizamento de terra no oeste do país matou 21 pessoas, deixou mais de 30 desaparecidos e 25 feridos graves .

Sudão: A Vila que Desapareceu do Mapa

Em setembro de 2025, a vila de Tarasin, nas Montanhas Marrah, em Darfur Central, foi completamente arrasada por um deslizamento de terra após dias de fortes chuvas. O balanço provisório apontava para a morte de todos os moradores da vila, estimados entre 375 e 1.500 pessoas . A tragédia ocorreu num contexto de guerra civil, dificultando o acesso de ajuda humanitária.

Etiópia: A Tragédia que Matou Centenas

Em julho de 2024, um deslizamento de terra no distrito de Geze-Gofa, no sul da Etiópia, matou 229 pessoas, a maioria soterrada debaixo de camadas de lama. Muitas das vítimas eram equipas de socorro que tinham ido ajudar as vítimas de um primeiro deslizamento .

As Minas a Céu Aberto na Austrália

Glenn Albrecht desenvolveu o conceito de solastalgia ao estudar moradores do Upper Hunter Valley, na Austrália, onde a mineração a céu aberto transformou a paisagem rural em crateras industriais. As pessoas viam as suas terras serem escavadas, o ar tornar-se pesado e o sossego dar lugar ao ruído constante das máquinas. O lugar mudou à volta delas, e a sensação de impotência era o que mais doía .

As Cheias do Rio Grande do Sul (2024)

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu uma das maiores tragédias climáticas da sua história. Chuvas até dez vezes acima da média histórica destruíram casas, pontes e estradas. A paisagem familiar — a padaria da esquina, a praça onde os filhos brincavam, a rua arborizada — desapareceu. O que fica, além dos escombros, é um vazio emocional que o psicólogo Lucas Marques descreve como "trauma crónico e/ou sentimento de desesperança" .

Paradise, Califórnia: A Cidade que Ardeu

Em 2018, o incêndio florestal mais mortífero da história da Califórnia destruiu quase toda a cidade de Paradise, matando 86 pessoas e desalojando dezenas de milhares. O músico Don Criswell, que atuava cinco noites por semana na cidade, viu a sua vida transformar-se num instante. A sua esposa, Debbie, descreve: "conseguimos fingir que tudo está bem. Mas quando andamos de carro, lembramo-nos de que o que conhecíamos desapareceu" .

O Ártico que Derrete: Quando o Modo de Vida se Extingue

As comunidades Chukchi, na Rússia ártica, caçam morsas e baleias há gerações sobre a plataforma de gelo marinho. Mas o gelo está a derreter. O que antes era uma tradição transmitida de pai para filho, uma cadeia ininterrupta de conhecimento e identidade, está a desaparecer. Eduard Ryphyrgin, um caçador Chukchi, resume a dor: "Os animais de que nos alimentamos precisam desta plataforma. E nós precisamos desta plataforma" . Não é só o alimento que está em risco, mas a própria identidade.

Como a Solastalgia nos Prende

A solastalgia é, em essência, uma resposta do jogo finito. É a tentativa de nos agarrarmos a uma paisagem, a uma identidade, a um passado que já não existe. O cérebro, diante da mudança, ativa o alarme: "Isto não é o que devia ser. Isto é uma ameaça."
Isto leva a duas consequências:

1.Impotência: Sentimo-nos impotentes. A solastalgia está ligada à teoria do desamparo aprendido (learned helplessness) — a crença de que, por mais que se tente, nada do que se fizer vai mudar a situação. A investigadora Alicia Vela Sandquist conclui: "Solastalgia pode ser um fator que contribui para os efeitos prejudiciais das mudanças climáticas na saúde mental".
2.Nostalgia do passado: Ficamos presos à nostalgia do que perdemos, em vez de olharmos para o que podemos construir. O luto, quando se prolonga sem ação, transforma-se em depressão .
O problema não é a mudança, que sempre existiu, mas sim a identidade fixa — a crença de que o nosso lugar, a nossa paisagem, a nossa comunidade têm de ser eternamente o que sempre foram .

O Infinit Mindset como Resposta à Solastalgia

A solastalgia não desaparece com um pensamento positivo. Exige uma mudança de identidade, uma reconfiguração da forma como nos relacionamos com o lugar, com a mudança e com o futuro. O Infinit Mindset, desenvolvido no Prime Mind, oferece essa chave: usar a dor como informação, não como paralisia .

1. Aceitar o Luto sem Ficar Preso Nele

A solastalgia começa com uma perda legítima. Ignorar essa perda é tão prejudicial quanto afundar-se nela. O primeiro passo é nomear a emoção: "Isto é solastalgia. É a dor de ver o meu lugar a mudar. É desconfortável, mas não me vai matar" .

2. Trocar a Identidade Fixa pela Identidade Adaptativa

Em vez de "sou esta pessoa, deste lugar, com estas memórias", o Infinit Mindset propõe: "sou alguém que aprende, que se adapta, que encontra novas formas de pertencer". O lugar muda, e a identidade também pode mudar — não por esquecimento, mas por expansão. Como parafraseado de Charles Darwin: "Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta à mudança" .

3. Cuidar como Forma de Resistência

A investigação mostra que o cuidado ativo com o ambiente — plantar uma árvore, recuperar um riacho, participar numa associação de bairro — reduz os sintomas de ansiedade climática e solastalgia. Porquê? Porque quebra o ciclo de impotência. Cada pequena ação é um voto de que ainda há esperança. O ancião Ngunnawal Wally Bell ensina: "Se estás a sentir-te ansioso, vai a um parque local ou a um lugar calmo na natureza. Fecha os olhos e ouve o país. Pratica os ‘três Ls’: olha, escuta, aprende" .

Como Aplicar o Infinit Mindset no Dia a Dia

A solastalgia não é um diagnóstico médico, mas uma resposta emocional normal a uma realidade anormal. E, como toda a resposta emocional, pode ser regulada, transformada e usada como combustível. Aqui estão quatro estratégias práticas, baseadas no Infinit Mindset, para lidar com a solastalgia:

1.Dê nome à emoção: Pare de ignorar o que sente. Diga em voz alta: "Isto é solastalgia. Estou a sentir a dor de ver o meu lugar a mudar. É real. É válida. Mas não sou só isto." Nomear a emoção reduz a sua intensidade.

2.Separe o que controla do que não controla: Pegue numa folha. Desenhe uma linha ao meio. Do lado esquerdo, escreva o que pode controlar (as suas ações, os seus hábitos, a sua forma de se relacionar com o lugar). Do lado direito, escreva o que não pode controlar (as políticas globais, o clima, as decisões alheias). Foque a sua energia no lado esquerdo.

3.Transforme a dor em ação: O que pode fazer hoje, por mais pequeno que seja, para cuidar do lugar onde vive? Plantar uma árvore? Participar numa limpeza de praia? Aderir a um movimento comunitário? A ação é o antídoto para o desamparo.

4.Reescreva a sua relação com o lugar: Em vez de "este lugar era a minha identidade", experimente: "este lugar é parte da minha história, mas não sou apenas ela. Posso criar novas memórias, novos significados, novas formas de pertencer" .

A Verdade que Fica

A solastalgia não vai desaparecer. O mundo vai continuar a mudar. As paisagens vão continuar a transformar-se. Algumas vão desaparecer, outras vão renascer de formas que ainda não imaginamos. A pergunta não é "como parar a mudança?", mas sim "como quero viver dentro dela?" .
Como nos ensina o filósofo estoico Séneca: "A vida não é esperar que a tempestade passe. É aprender a dançar na chuva".

E como nos lembra Glenn Albrecht: "Quando a definição existe, as pessoas começam a perceber que compartilham a mesma angústia e tristeza pelo que está a acontecer. E podem perceber que a causa é a mesma".

A solastalgia não é uma fraqueza. É um sinal de que ainda se importa. E o facto de se importar é o primeiro passo para agir. Já sentiu esta saudade de um lugar sem sair dele? Comente abaixo. A sua experiência pode ajudar outra pessoa a perceber que não está sozinha.

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